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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Dia de sempre...

A vida se encarrega de nos apresentar as aventuras que nos proporcionam  a dimensional arte de viver.Assim, fazemos ou não festas a cada poesia , a cada sonho.
            E por falar em sonho,   outro dia, alguém me falou que uso desmedidamente a palavra  sonho e questionou-me o por que.Sorri meio como resposta e deixei a pergunta no ar.Ainda estou tentando encontrar a resposta , mas sei no íntimo o por que de gostar tanto de sonhos.Acho que gosto de pensar que sempre temos algo a realizar, algo a ser vivido, não fosse assim, a vida passaria despercebida e isso é algo que não deixo acontecer.Acho até que comecei a escrever isso, para poder deixar entrever a necessidade que tenho em observar o que acontece ao meu redor, do contrario, eu não perceberia a vida que se faz a minha existência.
            Gosto de sentir e ver as pequenas coisas, os pequenos atos , tipo:uma florzinha silvestre que insiste em crescer no meu descuidado quintal e resiste as intempéries,. Como a querer dizer-me: estou aqui, faço parte de sua história.Observo o Sol que desponta e infiltra-se pelas venezianas da janela de meu quarto, a pequena aranha , que teceu uma linda teia , com linhas multicores , em um  velho cajueiro no quintal de minha vizinha e que há muito convive com o tempo, casando sua existência com o vento que a balança e faz dormir um sono aracnídeo de felicidades.
            E assim, vivo a expectativa do observar e existir mediante os fatos que me acompanham... Nesse observar constante dos ritmos, sons e imagens que compõem a vida.
            Nesse transitar de informações, embeveço-me em observar o  dia de sempre, que todos os dias apresenta-se em nuances diferentes, apesar de aparentemente ser igual ao dia de ontem!
            Faço costumeiramente, uma pequena caminhada até meu trabalho. São meros cinco quarteirões. Posso afirmar, que os percorreria de olhos vendados sem perigo, de perder-me ou mesmo de acidentar-me, de tão familiar que o caminho me é.Reconheço , sem estar perto o cheiro da terra, a cor do dia , a disposição das pedras, a paisagem meio que mistura de cidade e campo..com uma pequena ponte que corre sobre o rio Maranguapinho, ladeada de verde , o gado criado num pequeno terreno , que muge triste sua canção em tom de lamento,as galinhas soltas nos terreiros , gatos vadios criados a ermo...Nesse observar também estão os já quase amigos do dia de sempre, falo assim por vê-los todos os dias , a mesma hora , transitando o mesmo caminho tal qual eu faço.
São mães com crianças sonolentas e chorosas por que vão a escola, pessoas em paradas de ônibus, bêbados de ontem, donas de casa varrendo suas calçadas e parando para socializar a última conversa da noite, o padeiro , talvez já em sua décima entrega de um pão , que há tempos deixou de ser quentinho .As vezes , estou sozinha, em outras acompanhada ...mas mesmo assim nunca deixo de observar a vida se fazendo, não numa repetição de fatos, mas numa ciranda mágica , numa alquimia única que transforma o simples no inédito, que é a vida!
            E assim, paisagens e pessoas se tornam familiares e assumem um papel importante , ainda que não perceptível em minha vida.Chamo a isso , laços , sem enlace...é uma espécie de adorno que dá-se  a vida,  sem perceber que tornou-se não algo importante, mas algo que existe, está incluso em sua vida.Se assim falo é por que hoje sei, e constato que há muito essa paisagem-gente que observo no dia de sempre, já faz parte de minha vida, minha rotina...não observar meu caminho, a canção do mugido do gado, é não perceber que mais um dia se faz...que mais uma poesia foi escrita na página de minha vida.E são pedaços hoje que fazem parte desse pequeno mundo que transito diariamente . e quando algo muda , me fere a visão, me embaça os sentidos , me furta coisas de minha paisagem que tanto muda , mas que só eu percebo.
            Agora enquanto escrevo, lembro de alguém que por tanto tempo fez parte de minha paisagem: uma senhora já anciã, talvez não tão avançada na idade, mas senil. Sempre sentada em  sua calçada a banhar-se com a luz e o calor do Sol. O sorriso suave dos que não percebem mais a vida passar, a palavra sem nexo, dirigida a qualquer transeunte, o pensamento perdido que levava-a a quilômetros de sua existência.Nunca me faltou com um bom dia , um sorriso , ou um simples aceno de mão.E mesmo, quando estava ausente em seu absorto pensamento , eu percebia que de longe ela me sorria , cumprimentando se não a mim, mas o dia de  sempre.
            Dona Maria do Socorro, companheira de paisagem por muito tempo.Um dia , ausentou-se da paisagem, senti-lhe a falta de imediato.Soube por outros integrantes da paisagem que ela sofrera um enfarto e estava muito mal , numa sala de UTI.Esse dia , como que proposital o gado mugiu mais triste, os carros buzinaram menos , a socialização das conversas da noite meio que pararam , o padeiro não fez seu anuncio habitual.Na volta do trabalho, fui saudada com a informação que dona Maria do Socorro, havia partido...seu tempo na calçada findara...Apesar de chorar fácil, não consegui chorar por isso.Creio que por que fiquei a imaginar-lhe em seu eterno sorriso inocente, dos que não percebem além da beleza das rosas.E sem que ninguém percebesse olhei para o alto e saudei com  um adeus, que podem crer não foi o último, pois ela continua a fazer parte de minha paisagem e ainda sorrir-me e acena , quando eu faço minha rotineira caminhada para o trabalho e aprecio mais uma uma vez, o encanto do dia de sempre!


fatinha, so fatinha 

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